sábado, 11 de dezembro de 2010

[E S P A Ç O S_E M_B R A N C O]

Hoje fui assistir ao espetáculo PRIMEIRO AMOR do Grupo Neelic. Uma peça inspirada no texto de mesmo nome de Samuel Beckett acrescida, ricamente, de outros. Antes de mais nada quero deixar claro que o que escreverei aqui trata-se, apenas, de um juízo de gosto baseado na experiência que tive ao entrar em contato com a criação do grupo.

Não tratarei aqui de todas as questões levantadas no espetáculo, muito menos vou enumerá-las, apenas refletirei sobre uma questão específica, que fez com que de cara eu gostasse do espetáculo.


V A Z I O S

Espaços em branco realmente existem? Para a pesquisadora de História e Teoria da Ciência, Luciana Zaterka da Unicamp, “essa é uma das questões mais debatidas através dos tempos e, portanto, mais instigantes para serem estudadas à luz da história e da filosofia da química”. De acordo com a filosofia, os espaços em branco, os vazios, surgiram no século V a.C com Demócrito e Leucipo, que propuseram que a natureza era composta de átomos e vazio.

De acordo com o filósofo Aristóteles as coisas [da vida] podem ser comprimidas [apertadas/espremidas] sem ser por seus espaços em branco, mas sim porque elas tem a capacidade de colocar pra fora aquilo que estava dentro.

A existência ou não dos espaços em branco ou dos vazios também foi estudada por Lucrécio, no século I a.C. Ele acreditava que nos espaços em branco acontecia a movimentação dos átomos – ora, e se houvesse matéria no lugar dos espaços em branco? Não haveria movimentação atômica. Não há espaço pra duas coisas ocuparem o mesmo lugar no mesmo tempo.

Quando volto meu olhar para o espetáculo PRIMEIRO AMOR, dirigido por Desirée Pessoa, percebo que a existência desses espaços em branco não se fazem presentes para compor um nada. Eles estão ali e falam, as vezes, muito mais do que os textos que saem, brilhantemente, dos atores. Os vazios delicadamente estudados e colocados em cena num ritmo constante, competem com a matéria orgânica que já existe ali, em cada ator e espectador. Ou seja, os espaços em branco em PRIMEIRO AMOR convida a cada um dos espectadores, que se deixam envolver, a colocar pra fora e compartilhar com os atores as mais diferentes sensações, no meu caso, angústia, inércia, melancolia, etc.

O vazio encontrado pelo grupo é o vazio de um eu cotidiano. E no espetáculo o público é convidado a se esvaziar também, assim como, provavelmente deve ter acontecido durante todo o processo de criação da peça e que ocorre em cena a cada apresentação. Dessa forma, Bárbara Amaral, Bruno Fernandes, Joice Rossato, Juliana Wolkmer, Simone Bianchini e Thiago Oliveira na atuação, Rô Cortinhas no Figurino, Zoé Degani na Cenografia, Silvio Ramão na iluminação e Desirée na direção, investem não vazio do vácuo [lugar que nada sobrevive], mas sim, no vazio de um vaso que aos poucos [no tempo e na medida que cada um quiser e puder] se deixa preencher pelo ar, pelo amor, pelas sensações, pelas potências que nos movem, pela vida.


SERVIÇO

O Espetáculo continua em cartaz até o dia 12/12/2010 na Usina do Gasômetro, sala 504, as 19 h.

Fotografia: Kiran


Referência

BORJA,C. O vazio funcional da química. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. N°24, 2010.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Um Capote Transparente


O espetáculo O Capote em temporada na sala 504 da Usina do Gasômetro até o dia 12 de Setembro de 2010 é uma peça que vale a pena ser sentida. Propositalmente ou não, o texto escolhido e adaptado de O Capote de Nikolai Gogol e a figura humana criada-encenada-transpassada são deixados em evidência. Várias são as maneiras de se evidenciar o "interior" humano. Mas a opção feita pela diretora Desirée Pessoa e os atores de nível avançado da Escola Neelic foi a de percorrer os caminhos do cotidiano, através de ações físicas, tendo como norte a pluralidade do ser (explorado no texto original de Gogol).
Em uma pausa rápida com a diretora num café, pude presenciar que o processo de criação do espetáculo, de certa forma, não pautou-se apenas em estudos de técnicas de encenação mas, também, no ato de explorar a diversidade de cada ser, fato que naturalmente é presenciado em cena. O figurino adotado, Capotes, exclusivamente confeccionados para o espetáculo, nos remete a gélidos tempos nos quais, metaforicamente, transpomos para a solidão nossa de cada dia, para a repressão sofrida por tantos e mais e mais momentos de baixas temperaturas diariamente sentida na pele.
A narrativa apresentada em cena é bastante clara, e ainda oferece ao espectador a oportunidade de se colocar no lugar de Akaki, muito bem interpretado por Guilherme Paniz, ou não, apenas observando e fazendo-se refletir sobre a proposta apresentada. Outro destaque das atuações fica com Simone Bianchini, que com seu dom de contrastes apresenta força e doçura no palco. Colaborando com a construção cênica, a direção e os alunos optaram por inserções de vídeos que certamente ajudaram na dramaturgia do espetáculo. A impressão que fica é que mesmo vestindo capotes com certa densidade...mesmo assim, às vezes, não somos capazes de nos esconder dos outros, do mundo e até de nós mesmos.

SERVIÇO
O Capote, da turma de nível avançado da escola do Neelic
DIAS: 02 e 03 (21h) , 04 (19h e 21h), 05 e 12 (15h, 17 e 19h) de setembro
Local: Usina do Gasômetro, (Presidente João Goulart,551) Sala 504
Valor: 15,00 (50% desconto para estudantes, idosos, classe artística)
Direção: Desirée Pessoa
Elenco: Ana Lúcia Feijó, Guilherme Paniz, Isolde Bianchini, Joice Rossato, Juliana Charão, Marcos Ibías, Naiana Tedesco, Simone Bianchini.
Fotografia: Kiran
Iluminação: Silvio Ramão

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A ORELHA DE VAN GOGH!

Holla!

É com muita alegria que venho registrar que vem aí a mais nova revista das artes de Porto Alegre: A ORELHA DE VAN GOGH!

Uma revista de cunho científico, destinada às áreas das artes visuais, da cultura geral, com seções para a Literatura, Teatro e Música. Além de tudo isso, ainda teremos um espaço editorial e, também, para cartas.

Uma revista que sempre abrirá seleção de trabalhos artísticos para estampar a sua capa!!!

E, por fim, logo mais divulgaremos a data de início do recebimento dos artigos, ensaios, entrevistas, resenhas e relatos.

Não deixem de conferir esse mais novo espaço do pensar as/com artes!!!

terça-feira, 13 de julho de 2010

RESENHA I - O SEMINÁRIO INAUGURAL DO CURSO DE HISTÓRIA DA ARTE

30 de março de 2010, terça-feira, 18h30.

Amor é
teu olhar que sobe
E desce torna a subir ao ramo
Desce ao poço detém-se...

(Amor é teu, Armindo Trevisan)

Armindo Trevisan ao rasgar sua carne publicamente e expor o seu amor pela História da Arte, foi capaz de seduzir-me, ainda mais, pelo ofício. Foi esta a sensação durante toda a conferência “Uma abordagem subliminal da História da Arte - Reflexões de um ex-Professor” ministrada pelo poeta e professor. Durante aproximadamente trinta minutos de exposição pude sentir que além de um ofício a história da arte também pode ser um modo de vida, como assim faz o poeta.

E como todo bom poeta, que vive e que é homem, indaga-se, mas indaga-se do mundo, da arte, da essência. Porque o homem faz arte? Porque se seduzir pela arte? E a essência da arte? É por essas e outras questões que sua fonte de pesquisa está pautada naquilo que a história da arte não é. Naquelas relações que esta disciplina traça ou finge traçar com outras áreas ou mesmo com os artistas, aqueles que são as fontes da arte. Armindo enxerga o artista como um ser privilegiado, um animal fazedor, capaz de criar uma aparência, uma ilusão, uma ficção que faz com que o contemplador se reconheça como homem e se reconhecendo, pelo menos por um instante, compartilhe de algo, sublime, que o tire de sua posição solitária e passe a ser tão privilegiado quanto aquele que produz. Está escrito na Bíblia “Javé Deus disse: não é bom que o homem esteja sozinho. Vou fazer para ele uma auxiliar que lhe seja semelhante”[1], e para o poeta a auxiliar, Eva, é o próprio sinônimo de arte, uma vez que o criador, não só fez como modelou a argila para criá-la à sua imagem e semelhança.

Eva, arte, nasceu de um desejo do criador de não querer deixar Adão só, pois não é bom, desta forma o poeta, me conquistando, diz que produzimos arte porque simplesmente desejamos transcender a solidão, revelando de tal modo nosso íntimo, possuidor de impressões únicas, como faz Armindo nesta conferência, por simples vontade de comunicar. Expor-se através de uma obra de arte, é acreditar que a solidão inerente ao homem pode converter-se em comunhão, tanto do artista-para-o-contemplador-quanto-deste-para-o-primeiro-através-da-obra. E através desta crença, o professor faz o seu primeiro juízo de valor da arte. Para ele a seqüência deste juízo de valor pode ser compreendida a partir da observação do homem pré-histórico e, sobre a experiência dos homens primitivos E. H. Gombrich nos diz que:

É impossível entender esses estranhos começos se não procurarmos penetrar na mente dos povos primitivos e descobrir qual é o gênero de experiência que os faz pensar em imagens como algo poderoso para ser usado e não como algo bonito para contemplar.[2]

Tal qual o historiador da arte austríaco, Armindo Trevisan aponta para utilidade da arte pré-histórica. Declama-nos que este homem era possuidor do poder da antecipação e que detinha o dom de imaginar o futuro, de prever os riscos que poderia correr durante uma caça, tudo isso através dos desenhos pré-históricos. Para Armindo, a função da arte pré-histórica é iniciar entre os homens o sentimento do medo. E através deste, e do poder da imaginação, criar, de certa forma, um meio de contribuir para o enigma que é o caminho de um homem.

Se o amor pela arte é a vitória da sociedade sobre a solidão, para o poeta a arte é a concretização do devaneio interior, a lucidez enternecida. Para ele a arte se defronta com a vida real, e a morte é a vida real. Neste momento, tomado pela paixão, rendi-me. Rendi-me porque assim como para a poesia a arte se revela aos atentos, para mim, a vida revelou-se pela arte. Para ele a História da Arte é um relato emocionante das relações entre os homens que abrangem um espectro que vai das mais simples às mais complexas, e só com muita dedicação é que se é capaz de apreendê-la. E nesse misto de relações, o professor termina a conferência do mesmo modo pelo qual caminhou durante toda sua reflexão, cheio de lirismo, convencendo a todos sobre uma de suas premissas: a arte é a defesa da vida.



[1] Gênesis 2, 18 da edição pastoral da Bíblia Sagrada, 1999.

[2] GOMBRICH, E.H. A História da Arte. 16ªedição. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p.40.