
Espaços em branco realmente existem? Para a pesquisadora de História e Teoria da Ciência, Luciana Zaterka da Unicamp, “essa é uma das questões mais debatidas através dos tempos e, portanto, mais instigantes para serem estudadas à luz da história e da filosofia da química”. De acordo com a filosofia, os espaços em branco, os vazios, surgiram no século V a.C com Demócrito e Leucipo, que propuseram que a natureza era composta de átomos e vazio.
De acordo com o filósofo Aristóteles as coisas [da vida] podem ser comprimidas [apertadas/espremidas] sem ser por seus espaços em branco, mas sim porque elas tem a capacidade de colocar pra fora aquilo que estava dentro.
A existência ou não dos espaços em branco ou dos vazios também foi estudada por Lucrécio, no século I a.C. Ele acreditava que nos espaços em branco acontecia a movimentação dos átomos – ora, e se houvesse matéria no lugar dos espaços em branco? Não haveria movimentação atômica. Não há espaço pra duas coisas ocuparem o mesmo lugar no mesmo tempo.
Quando volto meu olhar para o espetáculo PRIMEIRO AMOR, dirigido por Desirée Pessoa, percebo que a existência desses espaços em branco não se fazem presentes para compor um nada. Eles estão ali e falam, as vezes, muito mais do que os textos que saem, brilhantemente, dos atores. Os vazios delicadamente estudados e colocados em cena num ritmo constante, competem com a matéria orgânica que já existe ali, em cada ator e espectador. Ou seja, os espaços em branco em PRIMEIRO AMOR convida a cada um dos espectadores, que se deixam envolver, a colocar pra fora e compartilhar com os atores as mais diferentes sensações, no meu caso, angústia, inércia, melancolia, etc.
O vazio encontrado pelo grupo é o vazio de um eu cotidiano. E no espetáculo o público é convidado a se esvaziar também, assim como, provavelmente deve ter acontecido durante todo o processo de criação da peça e que ocorre em cena a cada apresentação. Dessa forma, Bárbara Amaral, Bruno Fernandes, Joice Rossato, Juliana Wolkmer, Simone Bianchini e Thiago Oliveira na atuação, Rô Cortinhas no Figurino, Zoé Degani na Cenografia, Silvio Ramão na iluminação e Desirée na direção, investem não vazio do vácuo [lugar que nada sobrevive], mas sim, no vazio de um vaso que aos poucos [no tempo e na medida que cada um quiser e puder] se deixa preencher pelo ar, pelo amor, pelas sensações, pelas potências que nos movem, pela vida.
SERVIÇO
O Espetáculo continua em cartaz até o dia 12/12/2010 na Usina do Gasômetro, sala 504, as 19 h.
Fotografia: Kiran
Referência
BORJA,C. O vazio funcional da química. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. N°24, 2010.
